RESENHA | Cosmogonias, de Otto Leopoldo Winck

livro otto
Disponível na loja virtual da Laboralivros, assim como outras obras do autor.

Cosmogonias
Ano: 2018
Editora: Kotter Editorial
Sinopse: “Em um cenário em que a poesia às vezes abusa das piscadelas modernistas da ironia e do trocadilho ou das citações chiques mas meio inconsistentes, os poemas de Otto Winck ocupam um outro lugar. A linguagem direta é clara, mas o livro esconde tesouros, diz mais do que parece pretender”  Sandra M. Stroparo

 

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Existem assuntos que só pertencem aos deuses. Todo mundo sabe disso.  Alguns desses sussurros eventualmente podemos ouvir entre as árvores, outros podemos notar na boca de algum animal distraído. Mas tudo isso só de vem em quando, em algum momento fortuito, para não dizer descuidado. Entretanto, o Teóforo é aquele que consegue trazer a mensagem para o entendimento dos humanos.

Entre os gregos, os Teóforos são dos mais variados tipos: são mensageiros das forças ocultas, de alguma musa caprichosa ou de algum Deus prepotente. Poetas, filósofos e sacerdotes que se dão ao trabalho de atiçar esse tipo de entidade: é uma espécie de ofício maldito. A verdade que o Teóforo guarda dentro de si a capacidade de falar sobre o daemon, de reverberar as vozes dos demônios antigos pelo papel ou pela própria phoné, já que logos é distante demais da crueza do mundo. É nesse aspecto que Cosmogonias de Otto Leopoldo Winck se torna, literalmente, fenômeno: podemos observar o bruxulear das vozes de um mundo que só nos cabe como imanência e que,  graças à poesia, nos chega em forma de linguagem, de uma mensagem que desvela.

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Cosmogonias não por acaso: não somente pela bela capa do Marcelo de Angelis, mas sim porque o livro se desdobra como um uno-múltiplo, em que cada poema se faz a gênese do l’autre monde que nos ronda bem como dos mundos que já existiram e foram contados para nós. Não há nada mais certeiro do que a crítica de Cristiano de Sales quando traz o trabalho de Winck para perto de Rimbaud, em fazer da poesia um “eu” ladrão de fogo que captura a luminescência dos grandes mensageiros do passado como Cristo, Dante e tantos outros para dentro de seus próprios versos. “Eu é um outro” e repetir o  gesto é como recriar o mundo, ser possuído por um genius incontrolável para reescrever o mundo todo de novo para realizar a demiurgia fundamental de todo poeta: ser imitador.

Há quem expulse esse tipo de figura das cidades, diga que é o tipo de trabalho que só engana as gentes, mas eu sinceramente acharia que Cosmogonias deve permanecer: tem muito o que contar.

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Sobre o autor

Tarik Alexandre
Mestre em Filosofia (UFPR). Pesquisador de teoria da literatura. Editor da Tudo éX Texto e das editoras Urso e BuruRu. Tem experiência como revisor de textos acadêmicos e literários, além de leitura crítica. Oferece seus serviços de Revisor e leitor crítico no Laboralivros.

Tarik Alexandre

Mestre em Filosofia (UFPR). Pesquisador de teoria da literatura. Editor da Tudo éX Texto e das editoras Urso e BuruRu. Tem experiência como revisor de textos acadêmicos e literários, além de leitura crítica. Oferece seus serviços de Revisor e leitor crítico no Laboralivros.

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