RESENHA |Desertos que dançam, de Ramon Lima

“Me mande alguma coisa, de um rito simbólico cotidiano, que satisfaça a significação do sujeito de ser quem se é.”

O primeiro ponto a se considerar em Desertos que dançam, de Ramon Lima, é que o título dessa antologia não poderia ser mais compatível com a composição dos poemas; tanto os temas como a diagramação se moldam e remoldam como as areias do deserto dançando ao vento; em alguns momentos eles repousam para enaltecer o oásis, mas na grande maioria das vezes são tempestade de areia e desidratação.

A poética gira em torno do eu que se move nas estruturas instáveis do socialmente construído em uma organização urbana contemporânea. A divisão por capítulos tem uma estética de evolução sazonal, que se assemelha com uma jornada no Saara, onde cada parte tem uma carga mais pesada de realidade, e a cada dia o soco da vida vem mais forte.

A primavera no deserto tem uma construção de rimas mais próxima ao clássico da poesia ocidental pré-contemporânea, mas o grande trunfo é a parte gráfica que impacta o leitor. A comparação da vida com uma viagem de trem é recorrente na arte, mas quando vemos um poema com esse tema distribuído sobre um mapa de uma linha de metro, a analogia visual se junta à modelagem das palavras e se torna um desabrochar de sentidos. É a poesia do cotidiano que aborda a existência de forma simplificada.

Vem então o verão, onde o tranco no leitor se torna mais seco e a escrita impressiona pela construção chamativa e um vocabulário moderno, mas ainda não pela agressividade. Nos deparamos com o cárcere consciente e as prisões do eu; vêm com força os efeitos sonoros e jogos de palavras, a poesia que funciona como uma metrópole com suas diversas impressões nos sentidos: pescamos com a visão em meio às palavras riscadas e ouvimos o gritar das rimas.

O outono traz os primeiros sinais da frieza, um capítulo que traz os ecos de uma sociedade hipócrita a qual encarrega ao poeta um compromisso e um fardo, e lega a missão de denunciar. É onde surge uma hostilidade menos polida, e a vida parece ficar mais dura, pragmática e os desabafos vêm em forma de boleto (literalmente).

O inverno chega com os dois pés no peito do leitor e derruba a sutileza; são poemas mais fatalistas, de uma crueza que nada tem a esconder. Temas como a morte e a banalidade, o modo fatalista com que as tragédias diárias são tratadas, recorrem nas páginas, nos convidando a sermos telespectadores da desgraça e do congelamento final do ser humano.

Essa evolução da intensidade durante a antologia é nítida e muito instigante, como se o autor tivesse sensibilizando quem está lendo aos poucos; o projeto gráfico foge do tradicional e tem uma parcela grande no efeito final do texto, atingindo pontos polissêmicos e que pode causar alguma estranheza, mas faz parte da imersão nos movimentos desse deserto em movimento. Uma leitura indicada para os corações aptos à sobrevivência.

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Sobre o autor

vickytoscani
vickytoscani
Cursa Letras Japonês na Universidade Federal do Paraná, onde tem projetos voltados para a literatura japonesa. Experiência com ensino de línguas, além de fazer traduções e revisões em japonês, inglês e português. Colaboradora e resenhista da Revista TXT magazine. Amante há muitos anos da literatura.

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Cursa Letras Japonês na Universidade Federal do Paraná, onde tem projetos voltados para a literatura japonesa. Experiência com ensino de línguas, além de fazer traduções e revisões em japonês, inglês e português. Colaboradora e resenhista da Revista TXT magazine. Amante há muitos anos da literatura.

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