Resenha |Fora de Ordem, Daniel Osiecki

Para mim poucos fenômenos são tão fascinantes quanto o caos. E também não há nada que represente tão bem a humanidade quanto ele.

A Teoria do Caos, atualmente, é um dos mais importantes estudos para a ciência e é aplicada a todas as áreas do conhecimento. A ideia dela é que uma mudança, mesmo que pequena no início de um evento, pode desencadear resultados completamente diferentes; é impossível prever como um sistema complexo irá se comportar exatamente. Se o universo e fenômenos naturais obedecem a esse caos e imprevisibilidade, a humanidade não poderia ser diferente.

O ser humano é a criatura mais caótica do planeta, e esse caos só parece aumentar.

Foi a partir dessa perspectiva que o livro Fora de Ordem, do Daniel Osiecki, me prendeu. Ele resolve abordar em seus contos a natureza caótica que a humanidade assume e de certa forma, se orgulha por alimentar. Através de contos fantásticos, o autor consegue de forma tranquila brincar entre o absurdo social e o que já é realidade, e ele faz isso a partir da quantidade de absurdo e repressões que passamos a aceitar nos últimos anos.

Fora de Ordem, de Daniel Osiecki

Não que o autoritarismo seja novidade em nossa história, a ditadura militar teve seu fim há poucas décadas. Mas é no autoritarismo mal disfarçado, no preconceito difundido e “moralmente aceito”, no fascismo exatamente igual e com uma roupagem nem tão nova assim que Daniel usa como ponto de partida para seus contos. Inclusive, em muitos momentos, isso nos faz questionar se aquilo que se lê realmente é distópico e ficção ou se realmente aconteceu.

A parte fundada na literatura fantástica, ao mesmo tempo que toda a falta de ordem parece extremamente verossímil, me prendeu na leitura do início ao fim. O volume começa com uma apresentação muito bem feita do que podemos esperar da leitura feita pelo autor, professor e tradutor Fábio Fernandes. Ao fazer referência a grandes autores como Kafka, Giudice e José J. Veiga, grandes mestres dos contos fantásticos, além de apresentar nosso contexto histórico atual, com o fascismo e a pandemia que nos acomete, ele introduz muito bem o que está por vir nos contos.

São 14 contos que vão fluindo entre o choque, a repressão, a pandemia, o autoritarismo. Também é questionado o conceito de liberdade, sanidade, bondade, empatia e principalmente humanidade. E pela forma que eles remontam o cotidiano, situações comuns, mas com o choque da desordem, o impacto é ainda maior.

São situações normais, reunião de condomínio, um passeio na rua, uma internação em um hospital, uma tarde na casa do avô, que inicialmente poderia causar uma sensação de reconhecimento e sossego, mas que sempre acaba por causar um choque. Algo definitivamente acaba por parecer fora de ordem.

Mais uma vez tentou abrir os olhos já abertos, como nos seus pesadelos de criança. Forçou muito, até lacrimejar. Não acordou.

Conto – Olhos Abertos

E parece que essa é a definição do que estamos passando no momento, ou seja, por mais que os discursos de alguns tentem nos convencer de que tudo está no caminho certo, inevitavelmente nossa sociedade está fora de ordem. Indo na contramão de ideais e progressos que há pouquíssimos anos eram valiosos e que tinham sido conquistados a custa de muito sangue, agora essas ideias, assim como há décadas, na ditadura, parecem ser censurados ou ridicularizados.

Além disso, é um momento de relativização da vida, em que uma doença que matou mais de 200 mil brasileiros é tratada com piadas, como se essas vidas perdidas não tivessem valor. Essa constatação também é muito forte nos contos. A escrita de forma mais crua que acaba por chocar, ao mesmo tempo me fez perguntar no que elas diferem das mortes que passam nos jornais todo dia. Dessa forma, fica ainda mais claro como normalizamos facilmente os absurdos de crueldade e como a vida do outro se tornou completamente banal para nós, apenas um número.

A racionalidade atávica desde cedo lhe trouxe problemas de relacionamentos e de empatia. Não sabia expli­car.

Conto – Pessoas felizes são tão irritantes

Os contos são envolventes justamente por nos mostrarem esse lado. Quando parei para ler o livro foi uma leitura rápida. Li de uma vez só e ficou um gostinho de quero mais em cada conto, ao mesmo tempo que me deixou em choque. É uma ótima leitura para quem gosta de livros cativantes, com uma grande semelhança com a realidade enquanto dialoga com outras obras. Como no primeiro conto, que dá título ao livro, em um momento de comoção foi impossível não lembrar da política brasileira e do clássico de Orwell, 1984, quando o Grande Irmão era cultuado e o momento de ódio que era alimentado.

Naquele momento, os moradores, seus vizinhos, que es­tavam quietos e aparentemente temerosos — uma plateia si­lenciosa e apática — levantaram-se e ovacionaram o síndico. Gritos de guerra como fora comunista, chega de esquerdistas, comunistas, queimem no inferno e outros foram proferidos a altos brados pela plateia ensandecida.

Conto – Fora de Ordem

Foi a primeira obra que li esse ano e sem dúvidas abriu muito bem minha temporada de leitura e indico bastante. Mas ela também me fez retornar a uma reflexão sobre o caos.

Devemos aceitar a imprevisibilidade que nos acomete (vide uma pandemia que mudou completamente nossa forma de nos relacionar) e por mais que seja impossível prever exatamente o que irá acontecer e controlar os eventos na nossa sociedade daqui para frente, podemos analisar caminhos que nos levariam ao erro.

Podemos dar uma estimativa do que poderia acontecer com determinadas ações que tomarmos, sejam elas políticas, ecológicas ou sociais. Isso significa que devemos aceitar a imprevisibilidade, afinal, no fundo o universo tende ao caos, mas podemos ter uma noção do caminho que estamos tomando.

Inevitavelmente, tudo vai parecer fora de ordem.

Serviço

Fora de Ordem (Editora Ipêamarelo).

106 páginas, R$35

Disponível em: www.editoraipeamarelo.com.br

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