RESENHA | Log#1525, de B.Demetrius

Can you hear me, Major Tom? A história de Log #1525 é a história de um fracasso. Essa expressão confere tanta justeza ao trabalho de B. Demetrius que se torna quase impossível refutá-la de todo. Apesar de pensarmos na primeira impressão que o romance se constitui de uma narrativa de ficção científica no qual somos entretidos pela presença de alta tecnologia diante de condições climáticas e planetárias adversas, logo somos conduzidos a constatar de forma bastante amarga a ineficácia dessa estrutura.

O romance epistolar, construído através da ideia de um diário de bordo que produz registros como logs, expressa o monólogo de um personagem desprovido de nome, conhecido tardiamente como Major. A personagem, que a princípio não possui nenhuma característica geniosa ou até mesmo virtuosa, é funcionário de uma empresa que conduz uma colônia humana para outro planeta até a ocorrência fatal de um buraco negro que os faz aterrissar, de forma forçada, em um planeta inóspito. Assim, o romance se desenvolve como uma linha cronológica de logs que retratam as atividades ou sentimentos do sobrevivente através de um estilo cru e até mesmo pouco cerimonioso. A psique de Major é muito clara através de seu texto: um homem paradigmático, até mesmo lacônico (apesar de piadista), que preza por comunicar e não exatamente pelo bem dizer. Entretanto, penso não ser esse o enfoque dessa resenha.

Voltemos ao aspecto da solidão: quando Major acorda, não há mais ninguém no planeta. Diante dessa solidão, Major escreve, e escreve para si mesmo enquanto dialoga com uma máquina, a saber, um chipset inserido em seu cérebro e que lhe possibilita uma série de tarefas para além do aspecto fisiológico humano. Apesar da semelhança com o caubói Case de Neuromancer (1984) em função de sua condição ciborgue, podemos notar em Major uma sutileza distintiva que corrobora ainda mais com nossa hipótese, pois o chipset ainda é só uma máquina que não compreende o afeto humano: a trajetória de Major é uma trajetória solitária mesmo que dialogue com algo ou alguém. A expressão da humanidade de Major é uma trajetória em que a ausência de humanos o leva a escrever para não se sentir inteiramente só, na esperança de que possa ser encontrado pela empresa que trabalha ou alguém e que seja resgatado/registrado. Falar a si próprio se consolida tal como uma oração, em que o registro visa evitar que a morte o conduza ao esquecimento.

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Existe alguma semelhança no proceder de Major com a atitude de Robert Burton em a Anatomia da Melancolia quando diz que escreve sobre a melancolia para justamente se afastar dela. Major escreve sobre suas desventuras carregando consigo um trenó cibernético, tomando café e comendo carne de algo próximo a um javali fosforescente em uma tentativa de explicitação de uma condição eminentemente humana: sobreviver diante da tragédia, mas também diante do próprio de estado de coisas que a existência garante como um eremita involuntário e que teme sua desumanização. Há nesse procedimento uma quebra de paradigma da estrutura tradicional do herói que sobrevive a todas as intempéries de forma vigorosa já que o Major explicita em seu relato a própria fraqueza em observar a possibilidade de perecer antes que seja resgatado. O agravante do trabalho de Demetrius, e que certamente é o grande agravante de Log#1525, é que provavelmente o destino do Major esteja projetado frente à incerteza do sucesso da empreitada, conduzindo sempre ao discurso dos registros como um apelo ora sarcástico, ora sóbrio, de sua própria decadência.

Log#1525 é um livro de rápida leitura e de grande acessibilidade no que diz respeito a seu público. Com uma ficção bastante atrativa, consegue propor uma discussão sutil e, de forma concomitante, evidente ao longo do trabalho sobre a condição humana. Penso eu que, de forma onírica, notamos a presença da referência Space Oddity de David Bowie a nos alertar sobre sua condição inevitável: Can you hear me, Major Tom?

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Sobre o autor

Tarik Alexandre
Mestre em Filosofia (UFPR). Pesquisador de teoria da literatura. Editor da Tudo éX Texto e das editoras Urso e BuruRu. Tem experiência como revisor de textos acadêmicos e literários, além de leitura crítica. Oferece seus serviços de Revisor e leitor crítico no Laboralivros.

Tarik Alexandre

Mestre em Filosofia (UFPR). Pesquisador de teoria da literatura. Editor da Tudo éX Texto e das editoras Urso e BuruRu. Tem experiência como revisor de textos acadêmicos e literários, além de leitura crítica. Oferece seus serviços de Revisor e leitor crítico no Laboralivros.

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