RESENHA | Mariana de Lacerda, A vendedora de Calcinhas Usadas e Outros Profissionais

“O livro de contos A Vendedora de Calcinhas Usadas e Outros Profissionais, escrito por Mariana de Lacerda, provocou em mim uma reflexão que há muito circunda a minha mente. Sinto que estou a repetir-me, e talvez eu esteja de fato, mas não é curioso o quanto nos sentimos atraídos por aquelas personagens que, em algum nível, apresentam uma certa disfuncionalidade existencial e social? A literatura contemporânea é marcada por um profundo desencantamento com o tradicional arquétipo do herói. E talvez esse desencantamento não encontre sua razão de ser apenas em um esgotamento tardio, mas também – e principalmente – a uma certa exigência do presente: a literatura, assim como os antigos e profanos rituais mágicos, evoca demônios e feras; sua função seria, então, essencialmente demoníaca. A imperfeição das personagens que tanto cativam-nos nada mais seria do que um reflexo de nossa própria imperfeição. Afinal, quem dentre nós não é um pouco como o médico e o monstro? Cada um de nós, à sua maneira, possui dentro de si um Sr. Hyde. O duplo, essa rachadura irremediável é o que nos define como humanos. Existir é estar partido.”

Livro: A vendedora de Calcinhas Usadas e Outros Profissionais
Autor: Mariana Lacerda
Ano: 2018
Editora: independente. Sem editora.

Sinopse: “Na internet podemos ser quem quisermos, ou até desaparecer por completo…

Inábeis em ocupar um lugar na sociedade, os quatro jovens aqui retratados têm transtornos de adaptação ao início da vida adulta, alguns tornando-se claramente disfuncionais. Roubar identidades alheias, usar a vida de terceiros como escudo atrás do qual esconder-se, expor apenas fatias descontextualizadas de sua rotina (aquelas que parecem um sucesso), apelar para caminhos inconfessáveis de ganhar dinheiro: todas essas soluções são exploradas por eles, nem sempre com bons resultados.
Por acasos e coincidências, seus caminhos se entrelaçam para o melhor ou, quase sempre, o pior. Marisa, aluna dedicada da faculdade de História da UFPE, é a única que tem metas bem definidas e vem conseguindo al
cançá-las, sendo o elo de ligação entre os demais, embora não tenha consciência disso. Porque Recife é um ovo — de codorna!”

O livro de contos A Vendedora de Calcinhas Usadas e Outros Profissionais, escrito por MarianA Vendedora de Calcinhas Usadas e Outros Profissionais por [de Lacerda, Mariana]a de Lacerda, provocou em mim uma reflexão que há muito circunda a minha mente. Sinto que estou a repetir-me, e talvez eu esteja de fato, mas não é curioso o quanto nos sentimos atraídos por aquelas personagens que, em algum nível, apresentam uma certa disfuncionalidade existencial e social? A literatura contemporânea é marcada por um profundo desencantamento com o tradicional arquétipo do herói. E talvez esse desencantamento não encontre sua razão de ser apenas em um esgotamento tardio, mas também – e principalmente – a uma certa exigência do presente: a literatura, assim como os antigos e profanos rituais mágicos, evoca demônios e feras; sua função seria, então, essencialmente demoníaca. A imperfeição das personagens que tanto cativa-nos nada mais seria do que um reflexo de nossa própria imperfeição. Afinal, quem dentre nós não é um pouco como o médico e o monstro? Cada um de nós, à sua maneira, possui dentro de si um Sr. Hyde. O duplo, essa rachadura irremediável é o que nos define como humanos. Existir é estar partido.

Quatro contos compõem o livro, sendo que um deles, o primeiro, dá nome ao mesmo. Quatro histórias cujos personagens, no decorrer dos acontecimentos, acabam tendo suas vidas cruzadas. Sendo o acaso aquilo que os une e ao mesmo tempo os separa. Acaso esse que é justificado logo na epígrafe do livro: “Recife é um ovo. De codorna.” Sim, as histórias têm como pano de fundo a cidade de Recife. O fio condutor que costura toda a trama é uma certa inadequação social que leva cada uma das personagens a buscar saídas, por vezes extremas e loucas, a essa inadequação. Há uma tensão no ar, de um lado as expectativas e demandas da vida adulta e em sociedade, do outro, as incapacidades, frustrações e desapontamentos de pessoas comuns.

Marta, que não se sente realizada com seu curso na faculdade, e tampouco vê sentido em levar uma vida de labuta, dedicando horas de sua vida a uma atividade despropositada, vê-se totalmente deslocada do meio em que vive. Ela leva uma vida secreta como vendedora de calcinhas usadas, sob a alcunha de Renata. Sua atividade é um segredo e ao mesmo tempo seu ganha- pão. Delano, outra personagem de destaque do livro, namora Marta e assim como ela, também possui uma vida dupla. Cansado de esforçar-se de estudar e trabalhar sem, todavia, ser devidamente reconhecido, ele decide trabalhar como convidado de aluguel, alguém que é contratado para fazer volume em festas e eventos da alta sociedade, após conhecer uma mulher chamada Branca que, vendo o potencial do rapaz, decide apresenta-lo a esse mundo. Apesar das facilidades e dos benefícios dessa profissão, Delano terá sérios problemas, pois seu envolvimento com Branca, as agenciadora, lhe trará consequências.

Inês, por sua vez, após fracassar em ser alguém na vida, decide abraçar o conformismo, passando todo o seu tempo a observar a vida alheia por meio da internet, como uma voyeur dos tempos modernos, sendo a vida dessas pessoas a imagem daquilo que ela não conseguiu se tornar. Agarrada ao próprio fracasso, Inês não é mais do que alguém que busca preencher seu próprio vazio com a contemplação silenciosa da vida de pessoas que, diferente dela, foram capazes de conquistar algo para si. E por fim, temos Alessandra, que no afã de ser reconhecida como alguém que teria se dado bem na vida, escolhe passar-se por alguém que não é, criando uma grande rede de mentiras e dissimulações.

A forma como as quatro histórias se emaranham é inteligente e orgânica. A autora demonstra possuir uma acurada noção de estrutura narrativa, estabelecendo conexões verossímeis. Apesar de ser um livro rápido, que pode facilmente ser lido em uma sentada, não se deve pensar que se trate de uma escrita superficial e descerebrada. Na verdade, a autora sabe como manter o engajamento do leitor, pois a atenção ao detalhe e uma certa manipulação da nossa expectativa, seja no modo como ela conduz a narrativa, seja em como ela arremata a história de cada uma das personagens protagonistas, torna a leitura instigante e atraente. Devo admitir que fiquei surpreso com o desfecho das quatro histórias, que se dá no epílogo do livro, a autora conseguiu me surpreender. Além disso, foi uma leitura estranhamente divertida, é difícil dizer exatamente o porquê, mas a forma paradoxalmente absurdas e críveis com que certas coisas aconteciam faziam-me rir num misto de estupefação e descrença.

Se você, caro leitor, está à procura de uma leitura rápida, porém proveitosa e inteligente, recomendo a leitura deste livro. Estou certo de que não irá se arrepender! Caso deseje adquirir a versão digital do livro, acesse: https://www.amazon.com.br/Vendedora-Calcinhas-Usadas-Outros-Profissionais-ebook/dp/B01LW3QH

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Sobre o autor

Raony Moraes
Resenhista do Clube de Livros, estudante de filosofia em hiato acadêmico, desenvolvedor independente de jogos eletrônicos e escritor amador. Catarinense de nascença, vive atualmente no interior de SP, mas pretende retornar à Curitiba, cidade que considera a sua verdadeira casa. 🙂

Raony Moraes

Resenhista do Clube de Livros, estudante de filosofia em hiato acadêmico, desenvolvedor independente de jogos eletrônicos e escritor amador. Catarinense de nascença, vive atualmente no interior de SP, mas pretende retornar à Curitiba, cidade que considera a sua verdadeira casa. :)

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