RESENHA | O Cólera A Febre, de Renan Porto

colera.pngO Cólera A Febre
Editora: Urutau
Ano: 2018
Sinopse: “Não sei quanto vale o escalpo dum poeta no mercado negro, dum poeta sincero, encarnado até o ponto da desgraça. Renan Porto chegou até mim bem despretensioso.

“Mais um poeta”, pensei. Queria publicar na R.Nott Magazine. Saiu, oras!
E não sou do tipo que pede recato. Como acontece quando leio grandes poetas, “como pode sentir tanto?” era o que eu pensava. Lembro da angústia que senti ao passar o olho pela primeira vez em “todo mundo tem direito de não amar quem lhe ama e sem dolo e maltrato lhe causar o sofrer.”Cretino, me fez sofrer na hora. Era um bom poeta.

Mais que isso, Renan possui a qualidade definitiva que, para mim, define todo e qualquer bom artista. Ele não é covarde – e em vossas mãos está o livro que o prova. Seja no contra anti-academicista “fulano de tal fodão referência forte”, seja na morte nunca ocorrida  sob a pseudo-bomba “Estação Maracanã”, seja nos sapos do Rio Doce, seja no coito de toda uma raça; Ainda assim topamos com seus decas e com seus dodecassílabos disfarçados na violência-prisão-de-ventre, com neologismos e pontuações sousandradinas que entram ponto a ponto na “carne que malha a ideia com vontade”; também com a “porra fria derramada no lençol” ou com o “fulano que não libera a bosta do cu”. Como talvez tenha dito o poeta português em algum dos seus rabiscos: “não há normas.”

E sem alimentar normas, Renan Porto é um poeta sério – mais sério do que eu jamais seria – e de temas graves. E de temas sinceros. Embora seu livro esteja dividido em três partes + uma valiosa introdução, não me levei por divisões temáticas poetoteóricoideológicas. Tudo se amarra e não importa em que ordem ou direção. Tudo o que eu vi foi carne; tudo o que eu vi foi gozo; tudo o que eu vi foi fome. Tudo é tão cólera quanto febre.

Eu diria, mais do que completamente-sinceramente, que o parágrafro que abre o poema “15”, na segunda parte do livro, chamada Veneta…

Bom, esse é um parágrafo que eu gostaria muito de ter escrito.

Renan realmente é um bom poeta. Seu escalpo deve valer muito no mercado negro. E se não for pra valer, que não valha absolutamente nada.”

*

O trabalho literário de Renan Porto, que já publicou pela TXTMagazine na coluna Leitura Xenólogas anteriormente e nessa edição lança mais um texto, me foi destinado para resenhar e de, alguma forma, demonstrar o quão interessante é a poesia de O Cólera A Febre, lançado em 2018 pela Editora Urutau. Sendo assim, me decidi por um pequeno itinerário a respeito de um livro pequeno, porém extremamente potente. Assim, para o início desse debate, é necessário retomar um curioso entusiasmo de Renan pelo célebre pagodão, ou ainda swingueira baiana, ao qual fui recentemente apresentado.

Jotaerre em seu trabalho Choraviolla II, eminentemente marcado pelas influências de swingueira, pagode baiano e demais ritmos brasileiros, conduz uma experiência musical da invasão dos holandeses em 1624 a Salvador com a composição de mesmo nome. A invasão holandesa foi um absoluto sucesso. Diante dessa experiência de guerra e desespero, a swingueira de Jotaerre busca a expressividade confusa e apegada ao transe de um conflito armado em que Salvador foi facilmente dominada em função do despreparo bélico brasileiro. É ornado através da composição um arranjo sofisticado e ao mesmo tempo confuso: a expressão da barbárie. Vem bastante a propósito a menção de um trabalho de swingueira que reflete a febre e os burburinhos das festas que acontecem pelas vielas das cidades de forma caótica e dionisíaca de forma a invadir o espaço público com sua música e verve. Curiosamente, músicas amplamente reprovadas pelos discursos explícitos, entretanto amplamente difundidas pelas janelas dos becos. Sem dúvida, podemos tirar dessa imagem um retrato do trabalho de Renan Porto em O Cólera A Febre, livro de estreia do poeta e pesquisador: ressoa na tinta das letras uma balbúrdia incontrolável que faz da caneta um fuzil que fala o que é de reproche na língua das pessoas, mas toca por aí.

Essa alusão a swingueira pode parecer, por um olhar mais desatento, algum tipo de deboche ou comparação grosseira. Porém, podemos observar que a obra de Porto se comporta de maneira similar: a busca por um trabalho que tem por horizonte a sofisticação e ao mesmo tempo suscita sensação de confusão para determinar o desenrolar de seu trabalho poético. Não sejamos levianos, porque o furor que se opera através do texto é o mesmo que remete ao marginal, não digno de nota, o sujo e escatológico.  Escrever jagunçada é coisa perigosa. Ainda mais quando notamos que é um livro pequeno, de 62 páginas, com uma capa que nos faz recordar de maneira esquizoide a figura do homem vitruviano. O título de forma bastante discreta fica ao topo esquerdo, sinalizando um trabalho supostamente austero. A figura do homem ocupa a frente e o verso do livro. Para nossa surpresa, as orelhas do livro são completadas pelo querido Vinicius Baarth, resenhado aqui em outros tempos com o Razões de Agir do Bicho Humano. Baarth visa pontuar, mesmo que de modo breve, o escalpo de um poeta (fato esse que percebemos, mais adiante, se tratar de fato de um poema que compõe o livro).  Disso ele conclui que “tudo se amarra e não importa em que ordem ou direção. Tudo o que eu vi foi carne; tudo o que eu vi foi gozo; tudo o que eu vi foi fome”. Falar de carne é coisa que interessa a Porto, talvez porque nela se habitem uma infinidade de vozes que pretendem falar de uma condição limítrofe do qual a escrita cria, molda nessa demiurgia esquisita feita na bala e no grito. Parece um convite ao propriamente confuso e desconexo, febre vertiginosa que atinge aos bichos e as gentes e que nela saltamos a falar de nossos delírios inconscientes, aquela doença dos poetas.

O livro se compõe de três seções (_ ISTO Ñ É UM TIROTEIO, _VENETA e _TODAS AS HORAS DO FIM) que podem ser compreendidas como uma escrita jagunça, em que o eu-lírico se põe em pleno combate com o cotidiano posto em debate. Cada seção tem por intuito tratar de um recorte específico, o que, entretanto, mais parece dar nome aos bois do que propriamente ser um recorte temático. O livro parece conter em si, dentro de sua perspectiva múltipla, a busca por uma unidade de pensamento que poderíamos denominar como esse vir-a-ser Jagunço.  Ser jagunço como aquele sem medo do que o espera no sertão, em que a confusão nada mais do que é lugar de se virar bicho. A rotina é esse sertão de que a gente só pode esperar um diabo no redemoinho repleto de dor, revolta e putaria. Atirar é tornar-se Urutu Branco, com uma perspectiva bastante Roseana, se valendo de bala raciocinada em um plano em que “é preciso se destruir como ‘eu’ para encontrar a solidão”. Solidão essa, paradoxalmente, cheia de muitas vozes uma vez que o plano da alteridade e desse devir correm à solta. Nesse sentido, O Cólera A Febre realiza um projeto de criação e análise da vida em seus aspectos mais corriqueiros, pois reside nela a constatação de que o mundo é propriamente a (des)ordem e o impossível de ser arranjado mesmo em sua banalidade ordinária. Cabe senão através de uma escrita a explicitação dessa alteridade que afirma o caos, como aquele que se vê possesso de um Exu repleto do zumbido que o silêncio faz. Je est un autre, já diria Rimbaud. Dar diante do caos o surgimento de uma estrela cintilante é o grande mote de Porto já que viver é muito perigoso.

Não podemos perder de vista que se enuncia aquilo que se pode ver: uma segunda-feira em que as pessoas são mortas, a polícia dá de ombros e as pessoas se reúnem para beber. Segunda-feira é sinônimo de um tédio que coloca nas coxas a beleza e a açoita com violência. A beleza não serve para adornos, mas sim para vulgaridades. O paradoxo da barbárie que se finge civilização é o motivo de vertigem, nela reside a doença das sociedades modernas e do qual a razão, la liberté e todos os atributos humanos  regados pelo século das Luzes se perdem em uma espécie de alfarrábio, um bestiário da existência. Não há dúvida que é escrita de jagunço, pois escrever é estar munido contra uma invasão, soltar os cães repletos dessa raiva célere ladrando poiésis com a boca espumando. Há no texto de Porto a raiva, patológica ou ainda temperamental, que escorre pelas formas do texto e que se complementa com esses retoques de febre, em que sonhar é virulência e vontade de emergência de algo novo. Cólera é Baco largando discórdia em risca-facas contra o academicismo desembestado, a urbanidade decadente, os falsos pudores, as sufocações da consciência. Uma poesia que se faz bicho sem nome que rói a carne no osso já que deu a costela como ritual pecaminoso pela criação: escrever só faz sentido enquanto profanação.

Talvez seja por isso que Renan tem aversão Faquires. Lembra com desgosto do homem que prometeu aguardar a amada por 99 noites em frente a sua janela até o amanhecer para se tornarem amantes. Lembra-se, com clareza, de que na 98ª, o homem levantou-se e foi embora. A poesia, e por sua vez a vida, são ação, atitude transformadora do qual a poesia de Porto busca incessantemente distorcendo e forjando conforme uma ampulheta ou como bem entender. A Liberdade provém de manipular o propriamente sujo, imundo e que as pessoas insistem em virar os olhos e com elas criar o novo, como tão bem queria Manoel de Barros ao falar sobre tudo o que é inútil e sujo. Febre é vertigem, sonho condensado na loucura das coisas e que não tem espaço para o medo senão como estopim para a cólera.  Diante da doença se fazer capaz de domar a guerra de todos contra todos e ser vitorioso afirmando o próprio absurdo.  Eis o convite de Renan Porto a conhecermos a vida e a esperança enquanto afirmação radical de uma vontade plástica e modificadora. O Cólera A Febre é um ímpeto, uma pujança de élan vital que se pode revisitar várias e várias vezes por umas 60 páginas. Um bom livro.

 

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