RESENHA| O Formato da Nossa Decepção, de João Paulo Oliveira

Em O Formato da Nossa Decepção temos em mãos um solilóquio sobre vida e morte, arte e solidão e, principalmente, sobre como tudo isso forma a decepção com o mundo e com a própria essência da existência. O intérprete narrador vive na penumbra entre o ser e o não ser, mostrando a destruição por trás das palavras bonitas, de uma vida sem propósito, bem ao estilo de Osamu Dazai ou de Natsume Soseki.

Vejo como principal tópico em pauta, o mundo humano que prende angústias e patologias dentro do ser, enraizando-as no psicológico, criando ciclos de pessoas sem objetivos vivendo flashes de emoções.

Outro ponto intrigante, considerando que o protagonista é um homem em plena confusão mental e irritado com a vida, desencantado com a morte e com poucas expectativas, é o valor do corpo para uma mente em desespero, a intimidade frívola e vendável de um idealismo morto.

Existe um posicionamento muito descrente em relação a tudo; uma sexualidade tóxica e a banalização de diversos movimentos sociais e instituições (religiosas, políticas, educacionais, etc), criando em alguns momentos um discurso levemente cansativo pela contínua insatisfação; mas não seria isso proposital se considerarmos a situação psicológica, emocional e física ignóbeis do narrador-personagem? Não se pode negar que as afrontas criam no leitor uma vontade de argumentação e de reflexão sobre a própria opinião (mas pode conter alguns gatilhos para quem frequenta os círculos de literatura de Ponta Grossa ou Curitiba).

Também considerando os autoquestionamentos que a obra produz no consumidor atento, é possível apontar que um dos maiores jogos literários envolve a dicotomia, que aparece em toda a narrativa; de vida e morte, os dois sentidos do além : o ‘além dos limites’ do comum que traz o desejo do ‘além espiritual’, os experimentos de até onde vai o normal.

Outras marcas do livro são as fases de estado do protagonista, delimitada (do modo que interpreto) pela forma de escrita e pela relação com as outras personagens; ele começa em um modo depressivo, que evolui para a mais pura raiva e angústia, culminando num cansaço generalizado que, como a fênix, renasce e se renova poeticamente, mas logo retorna ao estado de desapontamento analítico que toma como objeto o ser escritor, resultando na forma da decepção com o desencanto interno e externo.

Levando em conta isso, a palavra-chave do livro é “saco cheio”, o resto é toda literatura e poesia que vem e desabrocha depois.

“Nunca me vi parte dos nerds babando sobre as ‘letras’ e, do alto da minha vaidade kamikaze, sempre me imaginei sendo estudado por eles”. Pois que não seja uma decepção estar aqui como objeto de um nerd que baba nas letras :D.

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Sobre o autor

vickytoscani
vickytoscani
Cursa Letras Japonês na Universidade Federal do Paraná, onde tem projetos voltados para a literatura japonesa. Experiência com ensino de línguas, além de fazer traduções e revisões em japonês, inglês e português. Colaboradora e resenhista da Revista TXT magazine. Amante há muitos anos da literatura.

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Cursa Letras Japonês na Universidade Federal do Paraná, onde tem projetos voltados para a literatura japonesa. Experiência com ensino de línguas, além de fazer traduções e revisões em japonês, inglês e português. Colaboradora e resenhista da Revista TXT magazine. Amante há muitos anos da literatura.

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