RESENHA | O Peso do Pássaro Morto – Aline Bei

Existe um sapo que vive entalado na minha garganta toda vez que paro para pensar nesse livro. O Peso do Pássaro Morto é doloroso, mas ao mesmo tempo necessário.

Existe um elo indiscutível criado pela autora entre leitor e personagem, você sente praticamente a mesma dor que ela sente, com detalhes vívidos, sofridos. Provavelmente nunca viveu a mesma história, até que então ela se torna sua. Aline Bei contou uma história – em prosa poética – cortada, que corta também o coração. Os capítulos são divididos em idades.

8, 17, 18, 28, 37, 48, 49, 50 e 52.

Cada um narra um momento de perda ou transformação.

O texto se constrói a medida que avança: ele é vivo, tem corpo, tem tempo, tem suspiro e o famoso e já citado sapo na garganta. A personagem carrega o peso. O peso da morte, o peso da culpa, da dor, da tristeza, do que poderia ter sido mas não foi. O peso das coisas não ditas e o peso do que disse.

Carrega nosso peso.

Das coisas que não pudemos fazer ou evitar, ou até das que pudemos, porém mudamos de ideia no caminho. Bei, em seu livro de estréia, prova seu cuidado milimétrico a cada detalhe do livro, com escrita impecável e figuras de linguagem inteligentes. O livro não é só livro, é poesia viva!

E livre. Em todo o livro há essa ideia de que a personagem quer ser livre. Menina com medo de borboletas, adulta que quer ser aeromoça, o cachorro que ama chamado Vento, cartas que deveriam voar, mas caem no quintal. Ela quer ser livre e mantém o medo da borboleta, o que remete à sua vida presa. Presa com o emprego que não quer, com a vida que não pediu ou planejou, o filho que mata pássaros com estilingues quando criança.

O peso do pássaro morto.

É complicado falar sobre o que resta em nós quando tudo o que acreditamos não é mais certo. Quando nossos sonhos vão embora, o que resta é peso.

A capa tem uma estrutura parecida com o corpo do texto, como se estivesse desconstruida, e os capítulos (os números das idades) também aparecem. A cor é fria, porém chamativa.

Recomendo O Peso do Pássaro Morto com orgulho. O livro não apenas me fez desmanchar em lágrimas, mas também desenvolveu ainda mais minha empatia pelos seres humanos e seus sentimentos complexos (muitas vezes não compreendidos). Além disso, Aline Bei prova seu talento com a escrita magistral, de fácil acesso, que flui sem que você perceba, até que o livro acabe.

E que livro!

O que Bei deixa para refletirmos é que talvez, você realmente precise libertar o sapo que está na sua garganta. Caso contrário, terá que viver com o peso do que poderia ter sido dito junto com você. No final, você mesmo se aprisiona com o medo de borboletas, deixando de voar.

Faça boa leitura.

 

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