RESENHA | Outono Azul a Sul, de Calí Boreaz

 

calicapa

Outono Azul a Sul
Editora: Urutau
Ano: 2018
Número de páginas: 128
Sinopse: “Ao se dar a conhecer em versos de paixão precisa,  Calí Boreaz é a poesia e nela aponta novos sentidos. Rosa dos ventos que, colhida de abismos marinhos, exala perfume de “maresia distante”. Seguimos viagem. No rumo ou à deriva, que importa se são seus versos a nos soprar as velas?”

 

 

A banda Madredeus tem o costume de abordar em seus trabalhos, como grande parte da arte portuguesa, as relações marítimas. Vale a menção de uma de suas canções quando diz que “só tenho medo do grande mar”.  O mar chega a ser um tema até insistente: desde o homem caolho que resgata uma poesia épica antes de naufragar até as incontáveis apropriações ao estilo “navegar é preciso, viver não é preciso” que sussurram os textos pessoanos (ou soareanos para os rigorosos) que circulam por aí.  Entretanto, é inevitável não se olhar para o mar e não ver, mesmo que de relance, a melancolia do abismo que nos devolve o olhar e amedronta.

Penso que nesse sentido o trabalho de Calí Boreaz segue esse paradigma: por detrás do mar, pelos abismos, se escondem coisas invisíveis. Em uma dicotomia entre os palavreados de Lisboa e as aventuras no Rio de Janeiro, Oceano de Azul a Sul pretende trazer para o leitor uma experiência poética que trata da distância como o abismo do desconhecido, ou mais precisamente da ausência. Quando tratamos por ausência, pensamos justamente na concepção da falta, e acredito que em Boreaz temos o efeito da ausência como aquilo que efetivamente se perdeu. Ausência é aquilo que afunda, se perde num lance, ou ainda se desfaz em memórias efêmeras. Dessa forma, a falta de Calí é sempre o que se torna poesia, ou se impõe como o que está entre o abismo Rio/Lisboa e que os versos tentam por retomar.  O livro acaba por conter 7 eixos temáticos, munidos pelos trabalhos gráficos de Edgar Duvivier e António Martins-Ferreira que corroboram com a experiência textual de Boreaz enquanto liquidez, ou ainda essa dissipação das coisas que se perdem nas águas.

A água ao longo da poesia de Boreaz sempre gorgoleja angústias das histórias que, por decisão de uma talassocracia inevitável, estão naufragadas e somente a recordação pode nos trazer de volta. Os amores que repousam ultramar, ou então se afundam no azul profundo como efemeridades.  Talvez o poema o rio ilustre de maneira a etereidade que a água marca em Outono Azul a Sul:

ao mesmo tempo parto e continuo aqui,
sem fim

O passageiro, transitório e itinerante se tornam, assim como o entendimento heraclitiano da água, o mote das coisas que efetivamente se perdem e que, vez ou outra, o texto tenta por recuperar e que, no mais das vezes, resta como resíduo de saudade na grafia dos textos. Outono Azul a Sul não é um livro que deve ser lido de uma vez, mas assim como o velho pedido nietzscheano, é necessário ler de forma lenta e ruminante, de forma a desfrutar de todos os seus momentos (ou suas ausências) com a profundidade devida.

Facebook Comments

Sobre o autor

Tarik Alexandre
Mestre em Filosofia (UFPR). Pesquisador de teoria da literatura. Editor da Tudo éX Texto e das editoras Urso e BuruRu. Tem experiência como revisor de textos acadêmicos e literários, além de leitura crítica. Oferece seus serviços de Revisor e leitor crítico no Laboralivros.

Tarik Alexandre

Mestre em Filosofia (UFPR). Pesquisador de teoria da literatura. Editor da Tudo éX Texto e das editoras Urso e BuruRu. Tem experiência como revisor de textos acadêmicos e literários, além de leitura crítica. Oferece seus serviços de Revisor e leitor crítico no Laboralivros.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: