RESENHA | Perdão e Pêsames, de Hugo Simões

Abordando a questão da dor e da perda nos livros Perdão e Pêsames, Tarik Alexandre faz uma breve resenha do trabalho poético de Hugo Simões, autor do texto Transplantar publicado na edição passada da Tudo éx Texto. 

Pêsames
Editora: Dybbuk
Ano: 2016

Perdão
Editora: Contravento Editorial
Ano: 2019 (publicação iminente)

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Acho curioso que sempre que leio o trabalho do Hugo Simões, chove. Essa coincidência é tão grande que, enquanto escrevo essa resenha, está chovendo. É como se pudéssemos ter uma espécie de cartão de visitas de seus poemas pela chuva. Penso que, em alguma medida, essa coincidência nos conduza a sensação de que os poemas contidos em Pêsames e Perdão tenham o efeito de nos lavar, fazer escorrer por nós as águas de uma dor que pertence a todos: o sentimento da perda. Sendo assim, pretendo tratar seus trabalhos não em suas especificidades, mas sim em uma relação mais totalizante.

É uma constante que Simões faça da perda um dos maiores eixos de seu trabalho poético. Quando perdemos, efetivamente, nos aproximamos da ideia propriamente dita da destruição, daquilo que se desfaz de sua identidade e que, dali em diante, passa a ser nostalgia, um elemento do passado que é trazido de volta pelo mal-estar. Doer ganha em seu estatuto de sacrifício do corpo a característica de ser melancolia transposta em versos e, ironicamente, notamos todos os poemas grafados em tinta preta, em uma tradução da bílis negra feito por arranjos vocálicos e radicais linguísticos. Essa tradução dos afetos poéticos em formas, como os homens ancestrais da caverna de Chauvet que assopram o pigmento no formato de suas mãos e transportam qualquer coisa de sua humanidade para uma imagem. Talvez, em uma especulação devaneante, Simões aprecie a ideia de traduzir para acertar as contas com as tristezas e poder grafar, nesse sopro de sua própria humanidade, a seguinte expressão: perdoer.

Certamente, é nisso que notamos o maior diferencial da poesia de Hugo, pois a dor cria a capacidade de reformulação do próprio passado, fazendo da tristeza uma produção afirmativa que se presta a traduzir o sofrimento em uma lírica mágica. Perdoer é ser capaz de, no interior da dialética daquele que sofre a dor e daquele que a causa, se tornar um espaço gerador de frutos. Essa maternidade, a saber, de gestar a tristeza dentro de si para pari-la em versos, é a chance do florescer entre as ruínas qualquer coisa nova, producente, em um acerto de contas com esse passado repleto das mágoas. É impressionante o quanto o verso de Simões em Perdão se alastre por nós quando diz que “dê a flor como um verbo”, fazendo da linguagem esse instrumento divino de uma demiurgia da existência em um rompante de vida, mesmo diante da tragédia que é a dor.

Hugo é, por excelência, tradutor. Não só dos afetos que lhe circundaram, mas também do afeto dos outros. Um doutorando em tradução do mundo dos outros, ousaria dizer. Aliás, essa preocupação com a alteridade é tão grande que, toda a angústia resultante do sofrimento visa ser expiada não somente de um ponto de vista do eu-lírico, mas também daquele que é grafado, pois a linguagem em Simões visa em sua edificação de um mundo exterior e que, por espelhamento em relação a essa alteridade, trata de si. Não pretendo, todavia, dar maiores esclarecimentos a respeito dos objetos do Perdão, pois me soaria como uma traição aos mistérios de seus poemas, porém, me atreveria a dizer que a aproximação entre o escrever e o gestar dada em seus livros nos leve a uma relação muito próxima com o amor. O amor, diante da tradução, se faz como a chuva que arrasta a tristeza a esse lugar do homem de Chauvet e que, dali em diante, lava as chagas do mundo.

Certa vez, em uma comunicação que fiz na Universidade em meados de 2018, o encontrei e ouvi de sua boca que “é interessante como você faz do seu objeto de estudo algo tão interessante de se ler/ver”. Talvez, por uma mera construção do acaso, estejamos perdoendo problemas similares. A vida, enfim, são Pêsames.

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Sobre o autor

Tarik Alexandre
Mestre em Filosofia (UFPR). Pesquisador de teoria da literatura. Editor da Tudo éX Texto e das editoras Urso e BuruRu. Tem experiência como revisor de textos acadêmicos e literários, além de leitura crítica. Oferece seus serviços de Revisor e leitor crítico no Laboralivros.

Tarik Alexandre

Mestre em Filosofia (UFPR). Pesquisador de teoria da literatura. Editor da Tudo éX Texto e das editoras Urso e BuruRu. Tem experiência como revisor de textos acadêmicos e literários, além de leitura crítica. Oferece seus serviços de Revisor e leitor crítico no Laboralivros.

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