RESENHA | Porém Bruxa, Carol Chiovatto

Nome: Porém Bruxa
Autora: Carol Chiovatto
Editora: Avec
Número de Páginas: 256

Todas as religiões se preocupam com o destino da alma, porque até as doutrinas mais presunçosas sabem que o corpo pertence à Terra.

Eu pensei bastante em quais livros escolher para retornar a escrever resenhas aqui para a TXT Magazine, eu sabia que eu precisava seguir com a cara da revista e privilegiar autores nacionais e foi aí que Porém Bruxa, da Carol Chiovatto, me veio a mente. É sem dúvida um dos livros que eu mais gostei de ler nesse ano até agora, mesmo que por conta da quarentena a minha lista de leitura tenha ficado bem extensa. Mas eu não posso perder uma oportunidade de falar sobre essa obra e de divulgá-la para a maior quantidade de gente possível.

Porém Bruxa é uma fantasia urbana, que mistura muito bem elementos fantásticos, com o cotidiano de São Paulo e com as investigações e mistérios que permeiam a história. Tudo parte e se encontra na protagonista, Ísis Rosetti que é uma bruxa e seu trabalho é monitorar os crimes que envolvem forças sobrenaturais (que no decorrer do livro fica bem claro que são bem ativas na cidade de São Paulo). Seu trabalho é garantir a segurança dos comuns e não interferir, mas essa última parte ela quebra com frequência em suas investigações extraoficiais. É quando está envolvida em dois casos, que ela recebe uma missão de uma divindade e precisa entender e conectar as investigações.

E fica bem claro, conforme a leitura avança, como tudo realmente se conecta. A autora consegue desenvolver esse fio muito bem.

Mesmo se os bruxos decidissem intervir no cotidiano dos comuns, deveria haver regras e limitações, ou nos
tornaríamos tiranos (e, nesse caso, a Terra nos arrancaria o poder).

São 261 páginas, divididas em prólogo e mais 26 capítulos; não é um livro extenso (e nem parece ser esse o objetivo) e a leitura é rápida e cativante do início ao fim. Carol tem uma escrita leve e clara que conta a história e encaixa todas as peças de uma forma magistral.

Mas acredito que há algumas coisas que fazem Porém bruxa se sobressair das outras obras de fantasia que já temos no mercado. São elas a ambientalização, a representatividade, a humanização da protagonista e as personagens femininas.

Primeiro o ambiente chama muita atenção, pois é mais familiar para nós brasileiros, a grande São Paulo. Mesmo que nunca tenha ido lá, há certos lugares e menções que te soam mais familiares e tangíveis que cidades estrangeiras onde a maioria dos mundos fantásticos parecem convergir. No livro você consegue visualizar a estação de metrô que a Ísis inicia sua história e vários dos lugares de cenas importantes, então tudo isso dá um gostinho de pertencimento que ajuda muito na leitura.

Outro ponto executado muito bem é o da representatividade. Na obra há personagens LGBTQI+ de forma não estereotipada e que não soa forçado como se fosse apenas para cumprir uma cota. Eles fazem parte da história de forma presente e são essenciais.
Uma das personagens com melhor desenvolvimento, a Dulce, é uma travesti e seu plote não morre aí, ela tem várias características e se envolve ativamente com a causa dos moradores de rua. A representatividade também é presente com as religiões de matriz africana, que são retratadas sem estereótipos e com o cuidado que merecem.

Mas Ísis é uma bruxa, certo? Então esses poderes são desbalanceados e ela é uma heroína invencível? Não em Porém Bruxa.

Ísis é uma personagem complexa, com seus traumas e dramas que a ligam à humanidade. Ela cansa, se esforça, se esgota e comete erros. Na história, fazer magia é claramente muito mais que arremedos em latim, é uma clara conexão com a terra. Contudo, mesmo com esse poder, Ísis precisa de ajuda e não é invencível. E é nesses momentos em que entra, para mim, a parte que a autora desenvolveu com maior eficiência, ou seja, a rede de apoio entre as mulheres da história.

Por ser uma fantasia urbana, todas as mulheres com ou sem poderes, acabam enfrentando problemas que são comparáveis com a nossa realidade. E é nesse momento que ao invés da rivalidade feminina que parece ocorrer e ser estimulada em outras obras, é deixada de lado e se forma uma união muito bonita de se ver. Elas estão lá umas pelas outras e nenhuma precisa de um homem salvador para se sair bem na própria história. Elas só precisam delas mesmas e do apoio das mulheres ao seu redor.

Aquela frase era nossa declaração de amor uma para a outra: eu sabia que você vinha. Já havíamos passado por maus bocados, cada uma — ela, piores do que eu —, mas essa verdade incontestável só se tornou mais sólida. Eu sabia que você vinha, porque você sempre veio

E é esse o tom de Porém Bruxa, uma fantasia bem elaborada, com um mistério envolvente e críticas sociais bem encaixadas à vida real e ao contexto. Minha única crítica são alguns termos capacitistas que acabam escapando na história, que creio que também podemos excluir da nossa linguagem. Mas mesmo assim, é uma boa pedida para quem está procurando (assim como eu estava) por uma fantasia bem desenvolvida, com um enredo envolvente, representatividade e personagens femininas fortes.

O livro está disponível gratuito em ebook se você tem o Prime da Amazon, mas também possui versão física. Ambos você pode conferir nesse link.

E também no site de outras livrarias.

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