RESENHA | Revolta das canetas*, de Renato Ostrowski

Alguém já disse no passado que dificilmente bons poetas dão bons prosadores; ou vice-versa. Já disseram também que dificilmente bons contistas dão bons cronistas ou que bons romancistas dão bons poetas. Na verdade, se importar tanto com delimitações de gêneros é tão pequeno diante da boa literatura, que nem tenho me preocupado muito com isso. Ou melhor, não tenho me preocupado nada com isso, tanto que meu novo livro, 27 episódios diante do espelho (Kotter Editorial), não tem um gênero específico. É um livro híbrido. Mas essa resenha não é sobre minha obra, e sim sobre um belo livro que tive o prazer e o privilégio de ler, Revolta das canetas, do escritor curitibano Renato Ostrowski.

Renato Vieira Ostrowski nasceu no Rio de Janeiro, mas cedo mudou-se para Curitiba. Atualmente vive em Campo Magro (PR), e tem se destacado na cena literária do estado. Estreou na literatura com Opaca transparência (2012), volume de poesia. Depois vieram O ladrão de maçanetas (2018), coletânea de crônicas e o volume de contos Revolta das canetas (2019), lançado pela Kafka edições.

Revolta das canetas, Kafka Edições (2019)

Neste último livro, Ostrowski se apresenta com uma nova faceta, a do ficcionista. Na verdade o escritor já experimentava as narrativas curtas em seu livro anterior, e é aqui que sua produção narrativa mais se evidencia, pois seu estilo de cronista ou de contista, muito pouco, ou em nada, se distinguem. Em ambos os livros (O ladrão de maçanetas e Revolta das canetas), Ostrowski flerta com o cotidiano. Talvez venha daí a confusão, pois segundo elementos mais tradicionais e didáticos, crônica é a narrativa curta que aborda questões do cotidiano. Mas pode ser ficcional? Em que a crônica se difere do conto? Seria única e exclusivamente isso, que um gênero é ficcional e o outro não? Isso é tão simplista e cansativo que nem vale a pena continuarmos por esse caminho. Vamos ao livro!

Revolta das canetas apresenta ao leitor (a) 34 narrativas curtas que abordam questões que a princípio parecem banais, mas não se enganem, pois por trás de enredos simples há fortes reflexões sobre a classe média, sobre xenofobia (no conto Comida chinesa), sobre burocracia (vale ver o conto Senha) e sobre o meio literário provinciano, como é deliciosamente mostrado no conto que dá título ao livro. O texto, além de flertar com a metalinguagem, flerta com o absurdo, elemento caro a Ostrowski também em seu livro anterior.

Vale ressaltar que Revolta das canetas pode ser visto como o livro da maturidade do escritor Renato Ostrowski, ao menos aqui ele atinge a maturidade na narrativa curta, pois produzindo no ritmo que produz, Ostrowski possivelmente nos brindará, muito em breve, com um romance. As situações absurdas que descreve no conto Revolta das canetas com certeza fará cada escritor que planeja uma noite de autógrafos, tomar certos cuidados antes de partir para o lançamento.

Ostrowski talvez se aproxime de um Murilo Rubião, de um Moacyr Scliar, de um Fausto Fawcett não necessariamente pela estética, mas por aquilo que é deixado nas entrelinhas e que será degustado pelo leitor e pela leitora atentos (as). Em muitos momentos, seus contos, que mais parecem flashes do cotidiano, carregam sob o escopo do humor certos avisos ao leitor (a), como não preocupar-se com o supérfluo, com excessos, pois Ostrowski é um cultor do minimalismo, ou seja, os contos de Revolta das canetas são econômicos nos adjetivos, mas não são secos e muito menos estéreis; os textos do livro são férteis e ricos em imaginação, mas Ostrowski provoca leitores e leitoras dispostos a preencherem os não ditos.

Daniel Osiecki

*Revolta das canetas, Kafka Edições (2019). Esgotado.

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Sobre o autor

danielosiecki
Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

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Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

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