RESENHA | Tiago Masutti, Flores e Fúrias

“Tiago Masutti, em seu Flores e Fúrias, romance ganhador do prêmio Wattys 2018, demonstra-se possuidor de um grande fôlego para criar e dar vida à personagens tétricas, taciturnas e perturbadas por suas próprias neuroses e questões existenciais. Se em seu livro de contos O Cigarro tinha gosto de beijo – vale ressaltar que escrevi uma resenha sobre um dos contos presente nesse livro, resenha essa que o leitor poderá conferir aqui -, já éramos capazes de pressentir sua predileção pela abordagem de indivíduos de alguma forma fragilizados, cujas almas foram quebradas pelas intempéries da vida, aqui ele vai muito mais longe, mergulhando até as regiões abissais da psiqué destroçada de Renato, o protagonista do livro.”

capa: Laboralivros

Livro: Flores e Fúrias

Autor: Tiago Masutti

Ano: 2018

Editora: independente. Sem editora.

Sinopse:

“O mundo pode ser um lugar extremamente problemático. Principalmente quando esse mundo existe na mente de Renato, um jovem solitário obcecado por quadrinhos e grafite. No rigoroso inverno de 1975 em Curitiba, uma série de mortes e atentados insolúveis tem consequências desastrosas em sua vida. Diante da ausência de seu pai (um importante cientista nuclear, supostamente foragido da polícia); da insanidade da mãe (uma famosa escritora desquitada que  tornou-se alcoólatra); e da condição física debilitada de seu irmão (um paraplégico viciado em anabolizantes), Renato sofre uma grave crise psicológica e não sabe mais para onde ir, que curso universitário seguir ou em quem acreditar. Tudo que quer é ser amado e descobrir sua própria história. Se puder superar traumas pessoais e ajudar o pai nessa jornada, melhor ainda. Mas Virgínia, uma extraordinária e misteriosa vizinha que gosta de cultivar flores e tem um gato chamado Caronte, surge do nada e ele apaixona-se loucamente. Na mídia, um professor de literatura russa apresenta seu primeiro romance – Flores e Fúrias – que Renato pensa ter influência direta nos graves crimes que a imprensa atribui aos comunistas, enquanto seu melhor amigo acredita que a Linha Dura do Exército é culpada. Sentindo-se fraco e incapaz, permanece recluso no apartamento do pai enquanto luta contra seus monstros internos e reflete sobre a real natureza dos eventos ao seu redor. O caos reina em todos os aspectos, e talvez seu passado conturbado com drogas ilícitas, psicanálise e namoradas imaginárias possa ter alguma relação com suas dúvidas presentes. O que poderá trazer ordem para sua vida? Por que seu pai está sendo acossado pelas autoridades? Por que sua mãe delira e acredita que ele seria capaz de matar o próprio pai? E o que Virgínia tem a ver com tudo isso? Estamos em pleno Regime Militar, e Renato acredita que somente um super-herói poderá salvar o universo das chamas do mal.”

Resenha:

Tiago Masutti, em seu Flores e Fúrias, romance ganhador do prêmio Wattys 2018, demonstra-se possuidor de um grande fôlego para criar e dar vida à personagens tétricas, taciturnas e perturbadas por suas próprias neuroses e questões existenciais. Se em seu livro de contos O Cigarro tinha gosto de beijo – vale ressaltar que escrevi uma resenha sobre um dos contos presente nesse livro, resenha essa que o leitor poderá conferir aqui -, já éramos capazes de pressentir sua predileção pela abordagem de indivíduos de alguma forma fragilizados, cujas almas foram quebradas pelas intempéries da vida, aqui ele vai muito mais longe, mergulhando até as regiões abissais da psiquê destroçada de Renato, o protagonista do livro.

Não seria absurdo dizer que o grande mérito do autor consiste em saber como dar voz a esses demônios interiores, traçando a cada página, tal qual um pintor surrealista, o retrato ambíguo e distorcido de sua personagem. A psicologia atravessa toda a obra, fazendo-nos conhecer Renato desde dentro, isto é, desde seus medos, dúvidas e delírios  mais absurdos.

E por falar em absurdo, não pude deixar de notar que Renato muito se assemelha a uma típica personagem camusiana. Ele debate-se constantemente com o absurdo ou, dito mais claramente, com a completa falta de sentido do mundo ao seu redor. Ele talvez seja como Sísifo, figura trágica de um mito grego recuperado por Camus, num brilhante ensaio filosófico intitulado O mito de Sísifo. O narrador define-o como “um espírito que andava em busca de vida, fantasia, sentidos, razões, romances e, principalmente, soluções para mistérios insolúveis.” Ao contrário da flanerie de Baudelaire, cuja natureza Walter Benjamin compreendeu muito bem, Renato não vagava pelas ruas e praças de Curitiba, cenário no qual a história se passa, como que para colher os sentidos múltiplos do mundo que se agiganta diante da alma sensível e contemplativa do observador. Seu vagar era marcado por uma profunda alienação, por um profundo descompasso com o ritmo da mundaneidade. O espetáculo do mundano que move o flâneur cede lugar a um embotamento sensível que leva Renato a não enxergar nada além de seus próprios fantasmas, agrilhoado de tal modo dentro de si mesmo que o mundo a sua volta desapareceu por completo. Ele se encontra, nas palavras do autor, “à deriva num profundo mar de muitas ondas revoltas dentro de si.”

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“Sisyphus”, óleo sobre tela, por Nikolai Burdykin

Mas, antes de prosseguirmos com os desdobramentos filosófico-existenciais da obra, pontos nos quais ela se destaca, apesentemos o contexto geral que norteia o enredo. Renato vive numa Curitiba em plena ditadura militar, assassinatos misteriosos vêm ocorrendo na capital e Teodoro, seu pai e com quem vivia num apartamento do subúrbio, se viu forçado a fugir, pois começara a ser perseguido pela polícia sob a suspeita de ser comunista. Renato não compreende o que está acontecendo, o por que de seu pai ter fugido e que relação ele teria com os comunistas. Sozinho, ele precisa lidar com a nova situação que se impõe, isolado no apartamento do pai, ao mesmo tempo que luta contra suas perturbações interiores e suas crises psicológicas. Ele possui um irmão paraplégico viciado em anabolizantes que vive com sua mãe, uma escritora em decadência e alcoólatra. A relação de Renato com sua família é tensa, sua mãe acredita piamente que ele acabará por matar seu pai, como numa tragédia edipiana e isso o perturba. Como se não bastassem todos esses problemas, ele se apaixona por Virgínia, que acabara de mudar-se para seu prédio, o que o leva a reviver fantasmas de seu passado e a encarar sua suposta incapacidade de amar e ser amado. O mundo ao seu redor parece desmoronar, sua vida encontra-se completamente fora dos eixos e a esperança de que algo possa salvá-lo, um milagre, um acontecimento inesperado, esvai-se com sua coragem e motivação.

Agora que o leitor foi devidamente apresentado à história, retornemos àquilo que confere a Flores e Fúrias o seu brilho, a saber, suas questões de ordem filosófica e existencial. Renato é alguém cuja vida fora posta em suspenso, suspensão essa que o faz sentir-se girando no vazio, indo do nada a lugar nenhum. Ele reage a tudo o que lhe acontece, inclusive seu apaixonamento, com hesitação e desconfiança. Desconfiança na capacidade dos acontecimentos de lhe causarem algum tipo de alegria e desconfiança em sua própria capacidade de tornar-se digno do que lhe acontece. Como a maioria das personagens de Camus, Renato, diante do absurdo, paralisa-se. Ele já não sabe mais o que fazer com sua vida, que decisões tomar e qual rumo seguir; a faculdade de direito não o satisfaz, pois a carreira de sucesso e estabilidade econômica do meio jurídico lhe oferece apenas o horizonte de uma vida monótona e vazia; suas aptidões artísticas não lhe bastam; ele próprio não se basta e sente que uma grande falta o devora.

Contudo, o leitor não sentirá em momento algum tratar-se de um recurso artificial ou forçado. O autor possui a sensibilidade necessária para mesclar o teor filosófico-existencial do enredo à banalidade de diálogos – ou monólogos – autênticos. É possível acreditar na realidade dos conflitos de Renato. A reflexão, aqui, se faz viva, nada de diálogos herméticos ou de uso gratuito de uma linguagem rebuscada, repleta de floreios. No lugar de belas palavras, palavras verdadeiras. A simplicidade das palavras não diminui a profundidade e seriedade das questões que Renato constantemente coloca para si. Ele é sincero, honesto, quase inocente em seus devaneios intelectuais. Além disso, o autor é muito feliz em envolver o leitor numa atmosfera de suspense e sugestão que aguça a curiosidade. Um pouco como Renato, sentimos que as coisas não são o que parecem ser, e assim como a vida do protagonista, a narrativa é também um grande quebra-cabeças ao qual o leitor deve, atentamente, prestar atenção. Por exemplo, Virgínia possui um gato de estimação chamado Caronte; para quem não sabe, Caronte, na mitologia grega, era um barqueiro responsável por transportar as almas pelos rios de Hades, o mundo dos mortos. E não é sem motivo que tal fato pode intrigar um leitor atento a detalhes. Nomes como esse, talvez, não sejam escolhidos ao acaso. Claro, é possível que não signifique nada, sempre é, mas a narrativa é cheia que momentos como esse em que o leitor se pega perguntando se não haveria algo mais, uma palavra oculta entre as demais palavras.

A ambientação também merece ser ressaltada, pois as descrições acerca da cidade de Curitiba, as referências a ruas e praças, surgem com tanta naturalidade no texto que se torna impossível separar a personagem e a paisagem tipicamente curitibana dentro da qual ela aparece. Curitiba não é um mero pano de fundo, mas quase uma personagem à parte, em diversos momentos me vi como caminhando ao lado de Renato, vendo o que ele via e sentindo o que ele sentia. Se o leitor está à procura de uma obra que permita mergulhar na mente de uma personagem, Flores e Fúrias é certamente uma feliz escolha de leitura. Afora que a narrativa de natureza dúbia, quase como se estivéssemos deixando algo escapar, o manterá engajado para saber o que de fato está acontecendo e quais são os mistérios, se os há, envolvendo Renato.

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Sobre o autor

Raony Moraes
Resenhista do Clube de Livros, estudante de filosofia em hiato acadêmico, desenvolvedor independente de jogos eletrônicos e escritor amador. Catarinense de nascença, vive atualmente no interior de SP, mas pretende retornar à Curitiba, cidade que considera a sua verdadeira casa. 🙂

Raony Moraes

Resenhista do Clube de Livros, estudante de filosofia em hiato acadêmico, desenvolvedor independente de jogos eletrônicos e escritor amador. Catarinense de nascença, vive atualmente no interior de SP, mas pretende retornar à Curitiba, cidade que considera a sua verdadeira casa. :)

Um comentário em “RESENHA | Tiago Masutti, Flores e Fúrias

  • 2 de janeiro de 2019 em 18:14
    Permalink

    Caro Raony, agradeço pela atenção e empatia com Flores e Fúrias. Você tem um talento enorme com a arquitetura de palavras e ideias, produzindo conteúdo textual de elaborada síntese, ao mesmo tempo com análises e referências intelectuais profundas, além de um grande espírito humanístico sobre as pistas mais simplórias do mundo concreto. De uma escrita objetiva você extrai as abstrações mais coloridas. Uma belíssima resenha, parabéns por seu trabalho! Sucesso!

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