RESENHA | Um Quarto que Fala, de Maíra Vasconcelos

um-quartoUm Quarto que Fala
Editora: Urutau
Ano: 2018
Sinopse:
Maíra, uma poeta com as mãos em prumo.

Da primeira vez que li um poema da Maíra, gostei.
Sempre gostei sem saber por quê. Sabe aquela coisa que te assalta e corrói? Deve ser isso.
Algum impacto que fica, sem que se saiba bem.
Não é a rima inexistente, não é o ritmo que falta, nem a contagem das sílabas, que não há.
Não é um signo disperso.
O conjunto do texto-poema me soa esmagador e eu faço uma viagem sem sentido.
Este caminho-nenhum vale muito.
Afinal “um poeta com as mãos em prumo/ talvez tenha a mesma aparência/ de um cartaz de protesto”.
Romério Rômulo

***

Talvez devamos começar com uma pergunta: podem as coisas falar? Se falassem, será que se exprimiriam pelos modos como conhecemos? É de se pensar que, eventualmente, estivéssemos em contato com um mundo inanimado de que o silêncio é paradoxalmente ruidoso, expressivo de tudo aquilo que, na distração, nos escapa aos ouvidos. Rilke insiste em que existe algo como a melodia das coisas e que, cabe a nós, de modo atencioso, saber como ouvi-las.  Sendo assim, como interpretar um título tão instigante como o que nos aparece: O que significa, exatamente, um quarto que fala? Eis meu palpite:

Creio que não seja injusto, em nenhum momento, dizer que temos em mãos um trabalho de tradução. Um Quarto que Fala, livro de estréia de Maíra Vasconcelos, nada mais é do que a tentativa de explicação de um fora: o mundo percebido e que, através dos quartos, investiga meios de exprimir sobre si própria usando os objetos. Quando abordamos sobre cômodos pessoais, somos tentados a repassar dentro de nós mesmos tudo aquilo que se resguarda nesses recantos de nossa própria intimidade. Essa operação é de tal forma que muitos lembram de seus costumes em guardar nos quartos o que há de mais próprio e precioso que reside nos fundos falsos de gavetas ou no fundo de um armário coberto por uma série de outras coisas para não ser encontrado o tal objeto ou registro que, de tão nosso, não possui revelação.  Acredito que este seja o primeiro passo para adentrarmos de forma pertinente em Um Quarto que Fala, de Maíra Vasconcelos: tomar por certo a compreensão de sensações guardadas em quatro paredes e que, pelos versos, podemos manipulá-los e senti-los como relicários ou talismãs de afetos.

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O trabalho poético de Maíra é bastante imersivo nesse sentido, pois a narradora nos conduz com o uso da palavra a traduzir os sentimentos que são expressos pelos cômodos nos quais os poemas são produzidos. Aliás,  é curioso que essa relação entre o espaço e as nossas sensações seja tão intensa, ou, no mínimo, suscitada por esses adornos, móveis e apetrechos que nos rodeiam e que nos causam esse elo com um sentimento esquisito, as vezes até impronunciável. Eis que recaímos, tendo em vista a incapacidade do proferir, no dilema de Maíra: “Fico a pensar quem guardará estas palavras já tão distraídas da feitura das minhas mãos […]”. Traduzir, em Um Quarto que Fala, para além de preservar um sentido original, propicia uma genealogia que pudesse resguardar o sentido dessas sensações suscitados pelos objetos. Esse espaço de algum modo pretende expressar por meio de seus objetos tudo aquilo que poderia estar recluso e que no sujeito, agente do ambiente que o envolve, adquire a capacidade de arrebatamento e de delírio por essa espécie de evocação de tudo aquilo que a matéria silenciosamente nos conta. A poesia de Vasconcelos é exatamente isso: um gesto cristalizado e transmutado das sensações que percorrem esses ambientes e que, pelos poemas, o leitor é capaz de fazer a tradução reversa. Entretanto, a barreira da linguagem, o medo da solidão que assola o eu-lírico em dizer e, em sua transmutação, ser incapaz de afirmar perfeitamente o que se escondia por trás dos objetos.

Em seu aspecto mais radical, a proposta de Maíra é a pura sensação, ou o despir do sujeito em seu espaço de tal forma que todas as expressões são acometidas pelo contato com os objetos. Essa relação, um sonho que salta janela afora em um devaneio literário, visa revelar os segredos incapazes de serem refletidos em um espelho e fazem da concepção do “eu” que os evoca como porta-voz do quarto que ele elucida. Entretanto, essa busca pela elucidação mais nos conduz a compreendê-la enquanto confusão, pois uma vez que a voz dada como empréstimo aos objetos é a do eu-lírico, em que medida não temos, em si própria, uma subjetividade solipsista que fala para ninguém a não ser si mesmo? Desta perspectiva, seria compreensível notarmos os inúmeros poemas melancólicos produzidos no interior dos cômodos, como em uma sensação de isolamento. Penso que é justamente o nó teórico que habita Um Quarto que Fala que dá ao trabalho seu aspecto de interesse, proporcionando ao leitor a experiência de um monólogo que se confunde com a alteridade.

Reitero a pergunta: Podem as coisas falar?

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Sobre o autor

Tarik Alexandre
Mestre em Filosofia (UFPR). Pesquisador de teoria da literatura. Editor da Tudo éX Texto e das editoras Urso e BuruRu. Tem experiência como revisor de textos acadêmicos e literários, além de leitura crítica. Oferece seus serviços de Revisor e leitor crítico no Laboralivros.

Tarik Alexandre

Mestre em Filosofia (UFPR). Pesquisador de teoria da literatura. Editor da Tudo éX Texto e das editoras Urso e BuruRu. Tem experiência como revisor de textos acadêmicos e literários, além de leitura crítica. Oferece seus serviços de Revisor e leitor crítico no Laboralivros.

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