RESENHA | Memento Mori – uma antologia, vários autores

Capa feita pelo Laboralivros

Memento Mori – uma antologia
Editora: Editorial Hope
Ano: 2018
Sinopse:
Lembra-te de que és mortal!

Na Roma Antiga, quando um comandante ganhava uma batalha importante, percorria a cidade num glorioso ritual chamado “Triunfo Romano”. Atrás dele, para que não esquecesse que toda ascensão contém uma queda, um escravo sussurrava no ouvido do vitorioso: “Memento Mori”. Certamente que ao final da leitura destes contos, o leitor terá provado da doçura e da amargura daqueles momentos fugidios.

Para uma mente bem estruturada, a morte é apenas a aventura seguinte. O problema é que os seres humanos têm o condão de escolher exatamente aquilo que é pior para eles.

Alvo Dumbledore

Morte. O substantivo feminino que é capaz de invocar os mais diversos sentimentos nas pessoas, desde saudade de algum ente querido e até reverência pelos seus mistérios.

Desde a capa, que a primeira vista pode causar um estranhamento por sua delicadeza por se tratar de um livro sobre a morte, é que percebemos a proposta: É a morte com todas as suas facetas que é tema da antologia Memento Mori reunindo os mais diversos autores para falar sobre a mortalidade. O livro trata do assunto de uma maneira ímpar e delicada que condiz com os detalhes das imagens.

Nos cabe a pergunta: quem são os suficientemente corajosos para enfrentar a dolorosa constatação de que o sofrimento mortal não nos abandonará nunca?

 

O encanto já começa com o prefácio. O editor Tarik Alexandre revela mais sobre o título do livro, que sua tradução significa “lembra-te que és mortal” e como essa constatação consegue atormentar a nós mortais. Ele demonstra que estamos fadados a sermos seres falhos e por consequência mortais. Outra discussão que Tarik aborda é a do tempo. Contudo, esse agente é destruidor e  como para nós mortais, ele parece ser um Memento Mori eterno, sempre nos lembrando que somos mortais. E é nessa pegada de delícia e horror que é estar vivo que os contos são feitos.

Dessa maneira, o primeiro conto (e um dos meus favoritos) apresentado se chama Oferta da Madrugada e foi escrito por Fábio Alex. Assim, autor começa nos apresentando por meio do casal Moacir e Henrique a face angustiante de quando nos pegamos surpresos pela nossa mortalidade e com ela a questão se aproveitamos a vida que nos foi dada. Por isso, o autor aposta em uma ambientação na floresta amazônica e o uso de uma lenda local, a matinta ou mati-taperê. E dessa forma para falar sobre como a morte pode ser angustiante e como a imortalidade pode ser uma condenação.

Mas ele não estava preparado para a sombra que logo
começou a envolvê-lo cada vez mais, por mais que se esforçasse para ignorá-la. A inevitabilidade da morte. Muitas vezes ele achou que a compreendia, que sua filosofia desapegada havia nascido dessa percepção óbvia de que tudo acaba e que
devemos aproveitar ao máximo o tempo que nos resta.

A oferta da madrugada – Fábio Alex

Por outro lado conto seguinte, Madame Moire de Barbara Senna, que nos apresenta uma cartomante e o desejo que nós seres humanos temos de saber o futuro. Uma mulher, com suspeitas sobre a fidelidade do marido, vai até uma cartomante e acaba dando de cara com a sua própria mortalidade. Acontecendo no Brasil, a face da morte como vingança nos é apresentada, juntamente com as dúvidas que nos cercam pelo fato de sermos mortais e como elas nos deixam errantes.

Eu particularmente acredito que a vingança é sempre mais prazerosa que o perdão.

Madame Moire – Barbara Senna

Do mesmo modo, em terceiro temos dois microcontos de W. Teca que levam o mesmo título do livro e mostra a inevitabilidade da morte. Mostrando de uma maneira ácida e imbuída de humor negro sobre como a morte não escolhe idade e chega para todos, inclusive os medíocres que se pensam maiores do que são. A morte como solidão também é abordada pelas duas personagens.

slife fino holmes

E é esse mesmo tema que percorre a história de Paralelos de Felipe Cao, mas pelo viés social. O autor mostra como a morte pode igualar pessoas de realidades tão distintas. Contando a história de dois garotos, um de uma classe mais alta e outro que por pura falta de opção, acabou indo para o mundo do crime. Contudo, mesmo com as visíveis diferenças suas histórias encontram o mesmo fim.

Atribuíram erroneamente ao corpo a imortalidade da alma e se perderam num caminho que não tem volta: a morte!

Paralelos – Felipe Cao

A quinta história é Nossas Vidas de Pedro Basílio, sem dúvida uma das mais emocionantes. Escrita em forma de carta para sua irmã que já morreu, a protagonista nos dá a visão da morte para quem fica. A perspectiva da saudade é abordada de maneira sutil e de uma simplicidade muito bonita.

Se você estivesse aqui comigo saberia que neste momento da carta eu já
estaria sorrindo, chorando e com o nariz vermelho como o do Rodolfo, a rena. Sou feliz e triste ao mesmo tempo.

Nossas Vidas – Pedro Basílio

A penúltima história é Factual, do autor Rodrigo Nascimento, que aborda um tema extremamente atual: o feminicídio. Ele começa com divagações da vítima sobre seu relacionamento abusivo que a aprisionava e o tanto de tempo e vitalidade que perdeu com ele. O ódio então é mostrado como força motriz que acaba com a vida da protagonista.

Seria mesmo melhor ter uma morte lenta naquela rua do que aguentar Guilherme a tratando como objeto de seu prazer unilateral.

Factual – Rodrigo Nascimento

E antologia é fechada com chave de ouro com  Baú de Outono, de Taymara Lopes. O conto aborda a velhice, que é vista muitas vezes apenas como um estágio antes da morte. A autora mostra um avô que é tratado apenas como uma lembrança do que um dia fora e uma neta que em toda sua juventude procura o compreender. E é nesse choque de gerações que a história se desenvolve de maneira leve e emocionante, apresentando as histórias de amor.

Algumas pessoas provam que o para sempre quando é verdadeiro, não tem um fim em absoluto.

Baú de Outono – Taymara Lopes

Com todo esse conteúdo, não é difícil ficar encantado e toda essa ambientação é alimentada pelos detalhes gráficos do livro que são extremamente bonitos. As páginas do livro também contribuem na composição da atmosfera, com sombreados delicados e fontes que casam muito bem com a história.

Assim, fica claro que todo o visual do livro contribui para o clima das histórias, tirando aquela impressão pesada que se poderia esperar da temática, criando uma atmosfera mais reflexiva. Desde a capa, as ilustrações e os contos dos autores, é impossível não perceber a harmonia. Tudo é claramente feito com muito cuidado e trabalho da equipe, contribuindo para que o resultado fique incrível. Mas não seria de se esperar diferente pois os organizadores trabalharam em conjunto com os autores durante um bom tempo, no qual os textos foram trabalhados e retrabalhados e o projeto estudado com dedicação de todos os envolvidos e por fim, lançado pela Editorial Hope que abraçou essa ideia que nasceu como um projeto de autores independentes.

Veja o unboxing aqui no Instagram

Dessa forma, a antologia de Memento Mori é uma boa pedida para todos nós. Uma maneira inteligente de discutir a morte e contos muito bem contados de maneira  fluída e gostosa de se ler. Sem dúvida, todos os autores merecem os parabéns por essa obra e por a sua maneira terem mostrado várias faces da morte (e consequentemente, da vida) que poucas vezes se aborda em coletâneas que se propõem a falar do tema.

Aos interessados a obra está na Amazon por esse link. No entanto, recomendo fortemente que adquiram o livro físico, que tem esse visual incrível do qual falamos e vocês podem encontrar na loja da editora, aqui.

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