RESENHA|Relicário, de India Alves

Nas fendas da memória

Nos recônditos de mim

Um bravio sentimento

Que se mantém equidistante

Ao perpassar do tempo

O grande desafio do resenhista de poesia é atrever-se a se declarar apto a julgar e opinar toda a intimidade que representa os poemas e, especialmente quanto as produções contemporâneas, cercar de interpretações a liberdade que essa poesia contém. Ouso, todavia, levantar muros de questões sobre os versos de India Alves, na antologia Relicário (Editora Traços & Capturas).

O livro é dividido em quatro partes: minha palavra, eu, meu lugar e meu tempo, onde os próprios pronomes possessivos indicam a intimidade dos caminhos da própria consciência pelos quais a autora nos leva. Temos flashes de seu interior, com seus desejos, alegrias, angustias e silêncios e até o feeling de seu processo criativo. Sentimos também a sensação do interior como antagônico de capital, onde os movimentos são mais lentos, a vida é mais calma e o eu tem seus tempos de lutas internas e calmarias, a la Erico Veríssimo ou Isabel Allende, em que o toque interiorano constrói o ambiente de um romance histórico com vários significados e simbologias de uma forma bem sul-americana.

A presença da entidade do tempo como a semente e o ceifador da vida é, da mesma forma, muito presente. Vemos esse tempo como onisciente, não só vivo em seu capítulo, mas em todas as partes e de diversas formas: como o antagonista que nos carrega até a morte, como aquele que permite nosso desenvolvimento pessoal, como o construtor de memórias e criador da História, e como o objeto do passado, presente e futuro, como o sentido do instante que a humanidade busca entender desde os primórdios de sua inteligência.

A obra toda apresenta as palavras e os sentidos de uma forma muito sensorial; vivenciamos as experiências que são dispostas em versos como em um barco à deriva presenciando as ondulações da maré da literatura poética com a alma vibrando sobre o vento das descrições. O modo de escrever e criar de India aproxima muito o leitor da obra, com um vocabulário que se desenrola muito bem e uma gama de temáticas que atingem o âmago do ser humano enquanto ser pensante.

É um livro curtinho, de leitura tranquila e muito sensível, que deixa o espírito mais leve, o corpo flutuante e a mente com muitos caminhos.

Eu sigo na solitude

Sigo conjecturando a saudade

Calculando lonjuras

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Sobre o autor

vickytoscani
vickytoscani
Cursa Letras Japonês na Universidade Federal do Paraná, onde tem projetos voltados para a literatura japonesa. Experiência com ensino de línguas, além de fazer traduções e revisões em japonês, inglês e português. Colaboradora e resenhista da Revista TXT magazine. Amante há muitos anos da literatura.

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Cursa Letras Japonês na Universidade Federal do Paraná, onde tem projetos voltados para a literatura japonesa. Experiência com ensino de línguas, além de fazer traduções e revisões em japonês, inglês e português. Colaboradora e resenhista da Revista TXT magazine. Amante há muitos anos da literatura.

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