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MG 42Isaac Castro (Kotter Editorial, 2021)

Quais os limites entre realidade e delírio? Como uma névoa alegórica permeia a vida de um personagem perdido em seu próprio solilóquio sem interrupções? Em seu segundo romance, Isaac Castro trabalha com os demônios da memória, que são tão nefastos, ou mais, do que o inferno presente.

Em MG 42, o autor de A vingança (Kotter, 2020) nos apresenta uma personagem anônima, uma personagem que não sabemos para onde vai e muito menos de onde veio, apenas que tem como únicas companheiras uma metralhadora MG 42 e suas lembranças. É interessante perceber na narrativa que um dos principais elementos é aquilo que é sugerido, os não-ditos, os não-lugares. 

De uma casamata, no histórico Dia D, um soldado anônimo atira ininterruptamente em soldados rivais, seus inimigos desconhecidos. É nos momentos de maior ação que esse soldado nazista reflete sobre a vida, sobre o absurdo da guerra e principalmente sobre o seu passado. Por entre descrições de extremo lirismo, Isaac Castro aos poucos aumenta a dramaticidade existencial que acaba por moldar parte da identidade (fragmentada) desse soldado solitário que, só nessa situação de alarme, de vida ou morte, começa a questionar.Romance de fôlego e de linguagem densa, MG 42 aborda questões relevantes e caras à atualidade: violência, alienação, crença em falsos líderes. A ausência de diálogos e a construção da narrativa em parágrafos únicos representam o emparedamento claustrofóbico em que esse soldado se encontra.

R$ 27,70 (www.kotter.com.br)

Caderno felino do suicidaWilliam Teca (Editora Urso, 2021)

Novo livro de William Teca, Caderno felino do suicida é seu livro mais potente. Sobre o que se pode escrever hoje? Ou, como se pode escrever poesia hoje? Bandeira estava farto do lirismo, comedido ou não, e mandou tudo às favas. Pessoa nunca conheceu quem não tivesse levado porrada e, para piorar, seus amigos eram campeões em tudo. Torquato, naquele bilhete que deixou antes de ligar o gás, disse que pra ele não dava mais. (“Pra mim chega!”).

William Teca, curitibano da gema, nada tem da caretice e do bom mocismo da capital provinciana das araucárias. Teca, assim como Bandeira, está farto (e puto) com a falta de ousadia de certas vertentes contemporâneas. Neste Caderno felino do suicida, Teca aponta caminhos (para o leitor e a leitora atentos) de sua poética da terra devastada (que Eliot também vá às favas!), ou seja, seus versos quebrados são antídotos contra o comodismo pequeno-burguês. Como voyeur, o poeta aponta o que vê, mas não apenas as questões do outro, mas aponta para si próprio como se olhasse em um espelho partido. As faces que vê são amorfas.

Sob uma névoa de fumaça de cigarro e goles de “biritas baratas”, a metalinguagem se evidencia de poema para poema de maneira progressiva. Como um cultor do bom gosto formal, Teca passeia pelas impressões  do enjambement e qualquer deslize do leitor e da leitora podem ser fatais. 

Para Teca a poesia é visceral. “O bom poema é antropofágico”. Leitores e leitoras, deleitem-se com o volume que têm em mãos, pois segundo Teca, “este meu eu repleto/ de tabaco e álcool/sempre e eternamente/ da pior qualidade”, é uma provocação. Com cigarro aceso e copo em riste. Evoé!

R$39,90 (https://editora.laboralivros.com/)

A vida na GréciaRapsódiaMarcos Bagno (Parábola Editorial, 2021)

Marcos Bagno é mais conhecido do grande público por seus trabalhos nas áreas da linguística, da literatura infanto-juvenil e da tradução. Autor premiado e bastante difundido por todo o Brasil, publica agora seu livro de maior fôlego, o romance A vida na Grécia – Rapsódia. O livro narra de forma seriada a trajetória de Manuel, um jovem sensível e afeito, desde muito cedo, às letras. Romance de formação, o livro não se desvenda facilmente ao leitor e à leitora, é preciso desvendar seus meandros, os easter eggs.

Bagno demonstra ser um narrador nato com fortes influências de autores como Guimarães Rosa, Raduan Nassar e Clarice Lispector, com incursões por uma prosa extremamente lírica. O trabalho com a linguagem em A vida na Grécia é fator fundamental na construção do romance (livro gestado durante 33 anos), fazendo com que o leitor e a leitora se deparem com construções sintáticas e semânticas complexas, porém sem cair no hermetismo vazio. A prosa é densa, poética e com um forte apego aos não-ditos, aos elementos lembrados, aos elementos sugeridos. Belo romance que traz as marcas do poeta e do linguista em suas páginas potentes de significados e de fluidez.

R$ 49,00 (https://www.parabolaeditorial.com.br)

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Sobre o autor

danielosiecki
Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

danielosiecki

Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

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